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sexta-feira, abril 30, 2004

Verdade e Amor 

Começo desde logo por dizer que não gramo com canções amaricadas de amor eterno, isso é bom para os putos e para os velhotes. Sejamos realistas, SEMPRE!
Se o amor é a vontade de estar constantemente com a outra pessoa, pensar nela a toda altura, falar dela a todos que o ouçam, então amor é obcessão.
Se o amor é ciúme, desejo incontrolável pelo toque dessa pessoa, tocar-lhe, beijá-la, gerar descendência, ir com ela comprar roupa nova, então amor é libido.
Se o amor é querer ser o único de volta dela, é querer saber onde ela está, com quem anda, de que falam as amigas, o que pensam os pais, provas constantes de afecto, então amor é uma prisão.
Que é afinal o amor?
É tudo acima.
Se o amor é tudo, que dificuldade há em definir o amor? É o passar ao lado do evidente pouco romântico que o amor é tudo aquilo que não devia ser? Mas o facto é que o amor é realmente feito de expressões daquelas e não há como o embelezar. Deixemo-nos de floreados! Somente aquilo que não é belo precisa que o enfeitem. E o consenso é que o amor é realmente qualquer coisa de espantoso, enquanto dura... quando existe realmente...
Limpe-se o quadro e aceitem-se as evidências.
O amor é a mentira mais doce já contada. Como o pai natal ou o coelhinho de páscoa. Mas deve-se-lhe menos crédito por isso? E se fôr uma mentira? É menos belo por isso?
O amor não é também fé inabalável no próximo?
Que maior acto de fé existe que saltar para um buraco de olhos bem abertos?
Aceitemos o amor como é. Alegremo-nos por o poder ver sem fechar os olhos.
Realismo acima de tudo... ele vale por si.

sexta-feira, abril 23, 2004

Emprego e Comodismo 

É qualquer coisa de surreal o ambiente desesperante do trabalhador português que por sua rica saúde não consegue encontrar emprego.
Culpados serão os estrangeiros, os de leste, do brasil, das antigas colónias africanas, os indianos e até os chineses cujas lojas e restaurantes-cogumelo brotam por todo o lado, empregando outros chineses seus compatriotas. São estes os culpados a tantos olhos. Malditos sejam os que querem trabalhar em qualquer tipo de cargo que lhes faça ganhar o seu para os seus além-terra e além-mar. São eles que trabalham horas, que carregam fardos, que sacrificam por empregos que torcem tantos narizes refinados e desempregados. Não lhes basta um, não senhor, têm-nos dois e alguns três!
Centenas de milhares de gentes de fora, mão de obra não qualificada ou sem equivalências, e outros mais a chegar. Se a esmagadora maioria deles ocupa esses 2 empregos... onde raio está o desemprego que toda a gente fala?!
A verdade é que os empregos estão aí.
Nem todos os portugueses se sujeitariam às condições a que se sujeitam estes outros, mas isso desfaz a oferta de emprego? Reposição em supermercados? EU?! Obras? EU?! Tele-marketing, instalação de linhas telefonónicas, de cabos, limpeza da porra das paragens... estes são empregos que até quem não tem o 9º ano e saiba labiar o entrevistador consegue obter. A relutância de alguns, por acharem o trabalho abaixo das suas qualificações (supostas ou reais), pela carga física que exigem, pela desonra no desempenho da actividade, particularismo na área a explorar, não esconde o facto incrível, que num país com uma taxa de desemprego de 4 e tal %, num país em crise declarada em que toda a gente culpa alguém pela sua desgraça, com o rendimento per capita dos mais baixos da europa e em que as pessoas passam mais dificuldades financeiras... HÁ EMPREGO!! Não aqueles que as pessoas desejam, mas que os há, ninguém pode negar!
É um passatempo muito português (e eu abomino o uso desta introdução) o ficar parado à espera da oportunidade certa sem sequer ponderar negociar os seus sonhos por um meio de subsistência compensatório que o "ate" até melhores dias. Melhores dias virão! Mas não temos que esperar em cima do nosso cuzinho à espera! Empregos há, ou queres ou não queres! Queres queres, não queres não entope, não chama nomes aos estrangeiros e não insulta o governo!
Exploração? Também há... ninguém lhe pode fugir... mas qual é a maior exploração? A exploração do nosso trabalho ou a exploração da nossa preguiça?

sexta-feira, abril 16, 2004

O Culto dos Mortos 

O sentimento da perda é algo recente. Há séculos era um par de mãos e um torso a menos na caminhada pela sobrevivência, agora é uma amarra ao mundo que se solta.
A vida, disse muita gente, começa não aos 40, mas quando se perdem os pais. A suprema ligação ao mundo do antes com o mundo presente, que deixa sem direcção aqueles que deles dependeram para se guiar, tenham eles 10 ou 50 anos. Fosse o apoio real ou já meramente simbólico, os pais são garantia de segurança e conforto.
A sua perda é deveras sentida...
Mas não é estranho dar conta que para os que acreditam na vida além, a morte seja digna de lágrimas, se o que os espera é de facto a vida melhor? E para os que não acreditam, que a morte fosse uma certeza inescapável para a qual se deviam preparar todos os dias? Não será essa a lógica dos que não acreditam numa pós-vida? Viver o dia pelo dia? Carpe diem?
Facto facto é que a morte é um fim, não vários.
Que maior respeito devemos nós prestar aos mortos senão honrar a vida? Não será certamente postrarmo-nos à morte também por poucos dias que seja, chorando o sofrimento daqueles que já não podem sentir dor, aterrorizados pelo Nada de que nada sabemos.

E que dizer dos amigos que se separam, das famílias que se separam e se reunem para chorar os mortos? Que ligação senão histórica e genética mantinham eles com os defuntos? Aqui a ver está o sentimento de culpa pelo não aproveitar dos derradeiros momentos daquela pessoa, os últimos sorrisos, mas se assim é, somos idiotas! Usamos aquela pessoa, mesmo que já morta, para expiar os nossos arrependimentos num último encontro sem qualquer glória, sem qualquer homenagem digna do nome, sem coisa alguma senão... cara lavada. Estive lá, disse adeus... um adeus repetido, não diferente, decerto não superior ao adeus de há tanto tempo, sem sentimento de esperança, sem a ansiedade de um novo reencontro.
Não sabemos o que temos até o perdermos. Não sabemos que gostamos de qualquer coisa até a deixarmos de ter. Inventamos ou ressuscitamos grandes feitos para uma pessoa de outra maneira tediosa, de facto... MORTA para nós. Desinteressante. Sem apelo. Sem vida.
Como se atrevem a chorá-lo então? Não será antes um insulto a sua presença à volta da cova? Um tomar de certezas que realmente terminou o fim que lhe ditaram?
Não nos deixemos arrastar para isso... não deixemos palavras no ar... amar ou odiar nunca calar...
E quando chegar o fim... guardar as imagens e enterrar o morto, não permitir que se torne significado de dor quem tanta consideração nos mereceu.
Vivam os mortos? Vivam os vivos!

sábado, abril 10, 2004

Teoria da Amizade Pura - Parte 1 

A simpatia e a compreensão sempre me pareceram os critérios indispensáveis para as tais amizades que ficam sempre como referência e base de comparação para as que as seguem, quer sejam perdidas pelo caminho ou não.
Mas nunca vi uma amizade crescer do nada tão rápido, como quando um segredo é partilhado.
Não é que, pela altura a que chegamos a velhos, tenhamos ainda um grande lote de segredos por contar. Vamos abrindo mão deles sem dar por isso e a dada altura, todas as pessoas com que nos cruzamos juntas sabem mais de nós que aquilo que nos lembramos.
Vão sendo arrancados de nós e tanto melhor...
Sendo ter segredos qualquer coisa de universal, todos sabemos o quanto hesitamos antes de conseguirmos confiar em alguém recente com um dos nossos fardos. É qualquer coisa que demora o seu tempo e aprendemos a respeitar isso nas outras pessoas, não exigindo muito num primeiro contacto. Há coisas que não se perguntam a uma pessoa desconhecida... Porque não?
A revelação chegou inesperadamente, na forma dessa mesma pergunta, como em conversas com crianças em que a resposta à nossa resposta é sempre a mesma questão "Porquê?".
Porque não confiar segredos a pessoas? Porque não imediatamente? Que vida excepcional vivo eu que vivida em sociedade, não possa com ela discutir as suas vicissitudes?
Concerteza que situações há de que não nos orgulhamos da nossa conduta... mas julgamo-nos tão únicos assim que mais ninguém à nossa volta cometa erros semelhantes ou ainda mais terríveis?
Conscientes de todas estas reticências... como reagiriamos a alguém que não filtrasse a sua vida em conversa connosco? Como encarar uma pessoa honesta ao ponto de confiar os seus segredos a nós, a quem mal conhece? Idiotas seriamos se os levassemos a mal... mal empregues os seus confins a mim que nunca errei, que nunca escondi, que nunca senti em erro... que nunca tive senão esta cara perante todos.
A honestidade desarma e desarmará, quebra as defesas pelo facto de defesas não serem necessárias num ambiente não hostil, de partilha e cumplicidade.
É impossível gostar de toda a gente. Poderemos escolher partilhar ou não confidências com essas pessoas, sem medo que as joguem contra nós directamente ou através de terceiros, pensando bem... quem verá estas pessoas com bons olhos, se atentam contra alguém humilde o suficiente para baixar as suas defesas secretas?
"Se queres julgar o carácter de alguém, dá-lhe poder" não me recordo quem o disse, mas aplica-se na perfeição. Se a nossa confiança fôr traída... escusamos de perder mais tempo com essa pessoa, porque não nos identificamos com ela, nem ela se quererá dar connosco. Há que saber quando meter de lado. Se a nossa confiança fôr bem recebida, receberemos em igual medida a da outra pessoa. Senão... ver acima.


quarta-feira, abril 07, 2004

Teoria da Amizade Pura - Parte 2 

Tudo considerado...
A maior das cumplicidades não se atinge sem a maior das partilhas.
Confissões àparte, existe uma barreira raramente ultrapassada da vergonha, que é a vergonha da forma, da forma um do outro. O tabu da sexualidade, o do corpo... esse, por muitas palavras, só pode ser ultrapassado com gestos claros de partilha.
O corpo é o refúgio, é a prova de identidade última e é o bem físico mais prezado do ser humano.
O segredo mais bem guardado, apesar de todas as indicações para os seus moldes minuciosos, através de relatos, de decotes e peles à luz do dia.
Não é estranho verificar que na praia vemos as mulheres de bikinis, com toda a disponibilidade de serem vistas e no entanto, quando toca a roupa interior, a pudicidade impeça o vislumbre?
Isto só demonstra a confusão que vai dentro de toda a gente.
A nudez não é indicador de disponibilidade sexual, é prova de à vontade. À vontade, todas as mulheres se encontram na praia para se mostrar. Confinadas a 4 paredes, poucas são as que se sentem à vontade, mesmo à frente dos pais.
O apelo do sexo, o cuidado do sexo, o resguardo faz-nos todos um pouco paranoicos em relação ao que transparecemos.
A partilha da forma, por outras palavras, ficar nu ou nua à frente de uma outra pessoa nossa amiga, não é uma declaração de receptividade sexual, mas emocional. "À tua frente sinto-me bem, de ti nada tenho a esconder".
Tantas são as coisas que partilhamos com essas pessoas especiais, as DEVERAS especiais, que quaiquer limites, sejam um passo atrás e uma nota de desconfiança.
Prova disso é o nosso á vontade perante membros do mesmo sexo, aí não há vergonhas. E no entanto, a homossexualidade é um esqueleto no armário para tanta gente. Aqui, somos capazes de excluir a sexualidade do nosso sexo, assim como o fomos enquanto crianças. As crianças andam nuas pela praia porque não têm sexo... e no entanto, a pedofilia é o pior dos crimes sexuais.
A nudez entre amigos é uma partilha, é uma prova subtil de intimicidade, que nem sequer devia ser apreciada como invulgar, mas expontânea, natural... como tudo se quer entre pessoas amigas.
A dificuldade surge precisamente no discernimento dos sinais que podem ser interpretados nessa partilha. Mas não será ainda mais puro este momento, se fôr vivido com a consciencia de ambas as partes que o libido não tem ali lugar, assim como não tem lugar em balneários do mesmo sexo, como não tem lugar nas crianças que brincam nuas na praia?
A que ponto nos tornámos tão complicados?
A vergonha da nudez é um conceito cristão. A obrigatoriedade de roupa cingia-se ao frio ou ao fresco.
Nem todos somos sequer religiosos... temos manias de vergonha.
Já houveram até aquelas que me disseram que não tinham problemas com andar nuas à frente de pessoas próximas, mas não o fariam por respeito a namorados e família... isto não é respeito, é vergonha induzida.
O conceito de nudez frente a gente que nos é muito próxima, com quem desejamos uma amizade excepcional, é aceite por toda a gente a quem o sugeri. No entanto, a passagem à prática não é encarada como lógica... um caso triste de algo que faz sentido, mas que pouca gente quer adoptar.

sábado, abril 03, 2004

Mundo de palavras perdidas 

As palavras mortas e as palavras por nascer.
A sucessão lógica de "usar palavras" será a deteriorização e desaparecimento. As palavras mais não são que o seu significado, tudo o resto é fonética. Se o significado é trivializado, a carcaça fonética torna-se vazia, uma lembrança de um mito perdido.
O carrasco das palavras será sempre a linguagem, a necessidade sufocante que duas pessoas têm quando se encontram (para não mencionar dos que falam com os animais, plantas, sózinhos, etc) de recordar e antever tudo quanto se passa, por muito trivial.
Falar é educado, bem falar é cultivado mas e calar? Comprometedor? Anti-social?
Toda a boa medida é regada a moderação, não podemos ficar calados para sempre. Mas e estar sempre a falar? Quem muito fala pouco sabe. E muito falar para nada dizer. Nada dizer nunca é tão bem dito quanto no silêncio. Para sentirmos o que dizemos, para ter convicção absoluta do que defendemos, teria cada palavra de ser ponderada... calmamente. Mal conseguimos contê-las e o resultado é uma torrente de nada bem sonante que a todos espanta pela fluidez e que a todos esquece passado o eco.
O que dizemos por palavras, podemos tentar exprimir por expressões primitivas, como o sorriso ou um berro. Nem todas podem ser refeitas desta maneira. Mas quantos sentimentos já transcrevemos em palavras?
As expressões enganam! E as palavras?
As expressões são incertas! E as palavras?
As expressões são sujeitas a interpretação! E as........
Precisamos das palavras... mas por isso mesmo é que as devemos escolher. O mundo rápido à nossa volta mal pode esperar pelo descortinar de uma expressão, é verdade, mas... há tantas alturas mortas por palavras. Há tantas palavras mortas pela ansiedade de socializar.
"Ontem não me deixaram entrar no "Lux"... ia MORRENDO!!"
..........!!!

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